O dia nasceu, Dora não. Quando se é adolescente, é natural o desejo de parecer ter a sabedoria maior do que a vontade de aprender. Adolescente quer falar difícil, quer o melhor biquinho na foto e o melhor sorriso pra manter na frente de tudo uma verdade: ser tudo aquilo que ao mesmo tempo não se pode ser, ou não quer ser. É normal não saber, Dora era normal por isso e por todo o resto.
Dora, certa vez disse: "eu amo a minha vida, meu namorado, minha cachorra, e meus pais. Meus pais... Eles não me deram um bom exemplo de equilíbrio e carinho".
Pois é, Dora. Os pais não sabem da história também, e eu não sou melhor por saber, só estou contando, só. O tempo aqui embaixo não diz tudo. Por isso, antes de falar de amor ou de Deus, a gente precisa entender que os erros são apenas erros, tomados por decisões cegas em relação ao que os nossos olhos decidem enxergar no mundo. Sendo mais claro: mente quem quer, ama quem sabe. Mas sabe o quê? Amar, oras. Na liberdade de querer cuidar, estar abraçado no sofá assistindo TV aberta de domingo e conversar sobre o que viu a vizinha fazendo ontem de noite. Aquela vizinha porca que jogou o lixo todo aberto na lixeira.
O líbido é uma herança, mas pra quem escolheu ser vazio, é uma maldição.
Dora quis aparecer, esqueceu de ser. Perdeu um pouco de tudo o que poderia ser real. E os pais quando não eram exemplo? Decidiu então os olhos de Dora, sem usar a cabeça ou o coração - só a retina mesmo já estava bom, ser apenas desculpa pro escândalo no meio da rua, a traição aos seus verdadeiros amigos, a mentira de estar feliz sendo triste. De ter amor sentindo saudade do que se perdeu ao escolher errar. Sabe o erro por escolha que Deus sempre perdoa e fica tudo bem? É desses que vemos em Dora.
Parabéns Dora. Pobre Dora. Deus ilumina quem emana luz também, e só. É uma troca justa, mas não é justo usar a máscara até na hora de se reconhecer, na hora de acordar e ir direto pra pia com espelho escovar o dente. E olha que nem o dente escovado é seu. Mas nem é dentadura também. Bom, acho que deu pra entender.
Na verdade, eu acho que não, mas já que isso tudo é história, o que vale são as palavras.
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