terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ROSÁRIO

Não sei onde sou,
nem sobre dívidas
que me cobram.
Não me adapto
ao teu pôr do sol,
escuro na essência,
sem graça a demência
de viver pra gananciar.
Meio torto, vou tropeçando
e amando o que vier de bom.
e o que é ruim: eu venço em ti.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Não aguento yoga, aguento reinventar asas.

Eu queria
as fotos
de cor,
de qualquer
celular rosa.
Era moda.
Que tocava
uma música,
único tom,
bocas vivendo: 
um momento
que jogaram
no mar.
Pena agora
esse mar
ser enorme
pra procurar.
Pelas areias
daquela praia
apagada tanta,
se sonhava mais.
Prédio alto,
outro lado,
gestos francos,
é errado
viver pouco.
Escadas, rua,
de cima
eu vi.
Quem esquece,
sorte sua.

domingo, 14 de setembro de 2014

Eu ao meu encontro

O passado corre
e eu deixo ir,
pois a saudade
já não quer voltar.
Os ventos fortes
me fazem sorrir,
então eu deixo
a saudade passar.
Os versos simples
vão me descrever.
E meu futuro
hoje já não há.
Só penso em viver,
só quero estar 
em paz pra lutar.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

ultraviolentando

Agora eu não preciso mais
dos meus mesmos amigos,
das minhas tantas saudades
e de ter medo da escuridão.
A solidão é a minha aventura
preferida no que se refere às notas
soando sem sentido no meu ouvido
voraz e com sede de barulhos altos.
Vou então torturando o meu passado
com essa esperança que conforta
mas corrói e maltrata o que se destaca
em mim e nas pessoas dessa cidade
que choram tanto e reclamam da falta
de alguma coisa que elas não sabem.
Não saber é a tortura constante
de se ultraviolentar e inventar palavras
pra definir o que é escuro pra você
ou o que é profundo quando me afogo
nesse lago que me puxa, que me encanta
esse gostinho dessa morte em tanta vida.
Toda sina é viver o contrário do que deve.
Ai meu deus, as regras falam alto demais
sem a melodia torta que é dúvida ou a porta
que se fecha na minha cara, bate na minha cara
e me faz acordar, me tira desse pesadelo
ou me deixa nele mesmo, que eu gosto do que incomoda.
Me machuca então, me maltrata então, usa esse pedaço de pau então
e me arrebenta pra ver se eu acordo de uma vez.

domingo, 7 de setembro de 2014

Meu nome é Clara.

Clara, vê se fica calma,
respira, faz a tua reza
e fica um pouco mais.
Clara é oito ou oitenta,
quer ir até uma rua nova
pra ver prazer em passear.
A vida de Clara é um sol,
uma figuração qualquer.
No céu ela não cabe mais,
nem na saudade do quarto.
Uma vez Clara me disse
que o importante é a fachada
que você vê na sua casa
e poder sentir que ela é sua.
Se você se sente uma visita
que só incomoda e irrita,
talvez seja hora de viajar.
Mas pra onde Clara quer ir?
Tantos mares, cidades e Paris...
Mas Clara prefere um sonho
suportado por sua força forçada
que serve sempre pra nada.
Clarinha, tome rumo de uma vez,
olha o que essa frescura te fez,
bordou à mão tua própria solidão.


sábado, 30 de agosto de 2014

Onze horas.

As águas que banham campos de areia,
o céu da noite que escurece a nossa poesia
fraca, jogada aos becos de uma esperança solitária.
Eu sou feliz por fora, lá fora, e às onze acaba
toda sede, tanta fome, tamanha a minha manha
de fingir tão bem o que se deve ser nesta vida.
Madrugada pra mim ainda é noite, é contínuo
do que eu vivi depois do dia clarear, e foi pior
do que eu tinha imaginado pra mim no fim do dia.
Silêncio me lembra noite, solidão me lembra o quarto
que mesmo escuro e vermelho, sangrando lembrança,
ainda funciona como fonte de inspirar dores antigas.
Novos são os baianos cheios de força no turno noturno,
girando a manivela pra fazer do dia a sua noite de sono.
Entre tantas histórias, a com menos sentido sou eu,
a que menos se encaixa é a minha, mas todas finitas
quando gravam nas fitas só aquilo que nos convém ver.
E não há solidão pior do que aquela que mente o dia todo
e só é verdade quando finalmente o relógio aponta onze horas.



domingo, 17 de agosto de 2014

Trabalho II

Conto uns três degraus,
botando os pés no chão.
Agora tenho mais cem metros
de caminho pra andar por dia.
E o trânsito segue imprevisível,
combinando com o nosso amanhã.
Vinte minutos suando ao caminhar,
mesmo no frio, no calor, na chuva.
Eu quero meus pés no chão,
andando e vendo os rostos sérios
dessa imensa e forte e louca solidão.
De todos rostos somos mais um na multidão.

domingo, 22 de junho de 2014

Redenção

As portas abertas,
os gomos do suco,
a realidade imposta.
Nem tudo há aqui,
pois vencer na vida
é um estereótipo tosco
do que devíamos construir.
Por outro lado, pra lá,
há o tempo, há lembrança,
e nada me pertenceu no fim.
As portas fechando,
divinizando os lucros,
ofegante a fuga operária
que instalo pra existir, enfim.
Da luz, que nunca fomos,
me move ao leito pra criar
consciência, que talvez
me faça ver a cor do céu.
De algum lugar, no teu submundo,
ele não pode ser tão azul.
E se não for desta cor o céu,
prefiro eu partir e acreditar
que existe outra chance
em outra vida e em outro lugar.

domingo, 4 de maio de 2014

VINTE E OITO

Revivo fresca a memória de dor todos os dias 
pra decretar a minha culpa e me perdoar, enfim, 
com quem quer que seja. Até pelos meus acertos.
Carrego em mim a cor de cada parede das casas,
o desenho dos azulejos que coloriram as horas.
O rosto de cada um, em memória, carrega uma feição:
- Esquecimento, saudade, dor, se conformou, alívio.
Pensei e apontei o dedo na cara como sempre fiz,
mas dessa vez vi o alívio, que é um pouco meu também.
Alívio em ser como vocês e me preocupar com o outro lado.
Mas não tenho coragem nem pra morrer, quem dirá pra esquecer.
No final, o rosto de vocês é o meu refletido na minha loucura
de achar que a projeção da mente carrega alguma realidade.
- Sou tolo pra cacete, mesmo... video-game ou televisão?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sônia, já que eu não tenho insônia...

Alguém me mostra a solução
Não consigo esperar
Coração fingindo estar bem
Mas já desaprendeu respirar
Por tudo que eu já segui
Acreditando nos meus sonhos
Ponho a toalha na mesa
Enfeito o banquete pra não comer
Olha só, acho que eu morri
Grito sem parar com quem eu amo
E me afasto da minha luta
Olha que eu nem como fruta
E mesmo se a alma renascer
Meu corpo vai perecer
Se eu prosseguir assim
Sem nem lavar meus pés
Eu sinto ódio e sou humano
Mais normal do que quem desistiu
Sorriu pra mim querendo chorar
Eu aprendi a arte de esconder
Mas nunca me deixam entrar
Problema sempre vamos resolver
E se brotar do chão meu viver
Que seja num gramado verde molhado
Regado e tratado com todo amor
Como eu já fiz num solo infértil
E o solo da guitarra estéreo
Eu nunca sei ouvir os dois lados
Eu tenho uns vinte e fica apertado
Caber, vou sofrer com o nunca mais
Faço amigos pra lutar
Enquanto todo mundo prefere se apoiar
No chão, e onde der
Ter um casamento vivo, três filhos
E o resto não importa o que vier
Não importa de onde a grana do colégio vier
É seu padrão também, eu sei
Sabemos ser o que não somos
Tiro a foto e o efeito disfarça a dor
Rancor nunca mais no almoço de família
Se eu grito, mãe, é pra você me escutar
Nada pior do que o maior amor do mundo te calar
Eu aprendi errar e errei demais
Faltei no trabalho e fiz corpo mole
Confesso que até desisti por uns dias de estudar
Eu não queria achar a solução
O tempo passa e o argumento fica
Vazio divã que estimula uma pessoa rica
De bens, já tive uns dois ou três
Toquei pro mundo me esnobar
E se eu tiver razão, só vou me salvar
Sem incomodar, com os meus pés no chão
Espero não cavar meu túnel
E se for assim
Que chegue em algum lugar
Melhor que aqui
Só quero desistir
Ou talvez dormir
E melhorar.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Os outros não são só os outros. Deus não é só o nome.

Fico impressionado com a quantidade de gente com o cu na mão de não ter seu lugar no céu por tudo de errado que já se escolheu fazer. O perdão da igreja te livra da culpa, e a sensação de ser perdoado por uma força que é maior do que todos nós conforta a consciência da covardia de não ter a capacidade de perdoar-se com as pessoas que foram magoadas. Nem mesmo perdoa a si mesmo.

Eu não devo nada, e por isso mesmo eu só agradeço por tudo, sussurrando baixo só pra Deus ouvir. Mais ninguém precisa. Provar o tamanho da sua fé para os outros é atestar que existem diversos vazios acobertados e que tornam-se intocáveis, pelo simples fato de que parecer uma pessoa melhor é mais importante do que ser de verdade.

Nisso, criam-se círculos que apontam o dedo na minha cara e não enxergam a minha vitória do cotidiano. A vitória de acordar, voltar pra casa  em paz depois de um dia duro de trabalho, depois de mais um sonho barrado pelo preconceito e pelo vazio dos outros. Meu poema, meu texto, minha música, minhas fotos, meus momentos, minha família, a garota que eu amo: isso é Deus. E eu divido sem esconder nada de ninguém, e eu nem preciso citar o nome Dele pra que Ele se faça presente naquilo que eu faço ou naquilo que eu digo.

Olha o tamanho do mundo, meu irmão. Olha o tanto de coisa boa que Deus entregou na nossa mão. Divide o que você aprendeu de melhor com as pessoas, ame os seus iguais com todas as forças e insiste naquilo que você acredita. Eu sempre sou visto como o 'chato que fala demais' por muitos, mas o silêncio de vocês me ensurdece. Isso me incomoda e eu tenho o direito de fazer alguma coisa, por mais insignificante que seja, pra não conviver mais com tanta mentira e tanta pose.

Eu erro muito, mas a sede de acertar me dá forças pra manter os meus amores por perto, e eu os tenho. Tenho amor de sobra, pois depois de um erro eu procuro entregar calor, eu tento matar a minha fome humana de estar em paz com as pessoas. Me perdoa por tudo, vida. Você é valiosa demais pra eu e todos nós errarmos tanto. Você é quem merece primeiro as desculpas! E Deus: pode deixar que conversamos mais tarde.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Trote e xote.

Seca o vento frio
Ouvi dizer que não
Entenda cada passo
Sobra o pão na mesa
Sobremesa amarga
Choro pela Marginal
No chá e nas paradas
Prossegui, fiz um lar ali
Parte disso tudo é não ser
Nada, dizer qualquer coisa
Passo pelo tempo e ele ri
Fica aqui, faz um favor
Me esperar não dá mais
Leio os grafites e jornais
Paralelos ao que é doce
Moça foi-se andar pra cá
Que não estou, nem nós
Só o sol pra iluminar
É o que espera a porta
Aberta, liberta meu medo
Acordei cedo e nem dormi
Ainda a ferida sem cicatriz
Só fica quem quer saber
Do fim, meu rim parou
Morri, sei lá se eu vivi
Cavalos me guiam
Sou carga de arroz
Alimento teu chão
E por tudo sou nada
Amor, só calor que incomoda
Aflora os passos na calçada
Soa a voz da minha amada
Estrada, ao mesmo tempo
Vou pra todo lugar
Falta ar, eu sei que faltará
Sou pó que entope
Engole e boa sorte
Ao que nos resta respeito
Esfrega o peito na cara
Do HIV até a malária
Só se salva no perdão
De Deus, ou não
De quem vai te curar
Perdão, sei lá, meu rei.

Toalhas abarrotadas.

O amor pode rasgar
Mas só ele costura
Sobre a minha postura
De só querer um lugar
Há tempo de tudo, meu bem
E se não der tempo de nada
Vê se sobe logo essa escada
Que hoje colo não vai te faltar
Repenso em tudo e fujo dos planos
Mas a razão ainda me faz voltar
E todos os danos e panos
Me ajuda aqui com o varal pra secar
Seguindo os próprios conselhos
Eu escutei somente o teu
Seja o melhor que puder, meu filho
A vida não te espera e amanheceu
Filho, eu quero apenas o teu melhor
Tô só tentando ser bem maior
E nunca mais te ver chorar
Por mim e essa dor
Por mim ou por amor.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Sou é.

Meu peito anda limpo
Meu passo anda leve
Vezes voa, nenhum à toa
Sonho a mesma coisa
Vou lembrando dos aromas
Das rosas que murcharam
Dos acasos que me derrubaram
Volta e meia me arrependo
Dou mais voltas e compreendo
Alguém precisa perdoar
A culpa toda é de quem errou
Coração ferido tende amargar
Imagina o que nem recebeu desculpas
E as ovelhas seguem seu caminho
E se não me manipularam ontem
Alguma coisa boa eu fiz 
A paz de espírito sempre me quis
Falar a verdade te imune do erro
Poesia simples é ser de carne
Não preciso me enfeitar
Só de sorriso
E têm vezes que não dá
Nem pra levantar
Mas eu vou tentando, me guio
E se eu sou irrelevante
Sou errado e a comédia
Da tragédia eu fiz a vida
E hoje acordo no desejo
De vencer o que é minha vitória
De provar com meu paladar
De gritar com o meu próprio berro
Se eu sou cego ou sou inverno
Se é do céu ou vai pro inferno
Nem Deus vai te contar.



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Moça.

Fica de um lado só
Eu fiquei
Me sinto bem melhor
Não dissimulei
Essa pressa me atrasou
E a alma vira pó
Eu fui quem eu sou
Mesmo que tenha mudado
O CEP, a cor da casa
Meu sonho eu não mudei
Quase não sonhei
Se eu tremi
E o corpo formiga
Ainda sim
Sou de carne e ferida
Que canta em frente
Sobre teu silêncio gritado
Essa dança sem par
Deus era e foi sempre amar
A reza fica pra culpa
De aprender, no final
Que nunca vai ser o bastante
Nos pedir desculpa
Sem mudar.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Qual lado.

No outro dia já passou
Quem dera a ferida
De estar só eu, o quarto
E o ventilador
Que seca meus olhos
Mas a alma chora viva
Ainda bem que ainda sim
Queria a voz sem pedir
O momento certo foi ontem
E talvez sempre será
Por favor, não vou pedir
Vou conversar comigo
Até me convencer
Que tudo isso
É estar sozinho
Na caminhada disfarçar
Pra seguir e te explicar
Mas hoje eu tive que ficar
Calado.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Pulga atrás da orelha.

Escolhi um lado
Dos quatro do quadrado
E fui pra frente viver
Tentando não morrer (em vida)

Fui mais simples dizer
Desafino ao reconhecer
Sujeira e solidão deste estado
Matando fé à tiro de soldado

Foi, embora enquanto estive aqui
E meu pensar, sem hora pra dormir
Só quero repousar
Sem ter medo de sonhar

sábado, 4 de janeiro de 2014

Vazio científico.

Morre cada gota dessa chuva
Culpa do mormaço que o chão herdou do sol
E vejo em rostos diferentes a auto-ajuda indo embora
Mastigada pelos dentes e cuspida 
Ferida só se fecha com a própria poesia
Eu que mesmo assim, sem saber de nada
Escrevo alguma coisa por necessidade anunciada
Só divido pensamento, não ensino tabuada
Se eu recebi amor, é porque eu busquei amor
E se a minha fé se fez, é porque aceitei o meu rancor
E me desfiz desses pedaços meio podres e acabados
A tal da Clarice e o Abreu, morreu
Cada um no seu lugar e vou me inspirando no que é meu
Não arrasto glórias alheias nem emulo pensamentos
E essa coisa de escritor barato só merece meus lamentos
A verdade mora na gente, na minha antiga casinha
Que a vida faça alguém feliz por lá e vou seguir construindo a minha
Chega de rima, isso é pra quem merece
Quem não merece que lute pra merecer um dia
Amém.